... Ao abrir os olhos e me assentar eu podia ver que me encontrava em um quarto escuro e aparentemente normal, eu não precisava me esforçar para ver o quarto, mesmo que fosse escuro, meus olhos haviam se ajustado perfeitamente a pouca iluminação. O quarto era grande e na parede que se encontrava a minha esquerda havia um guarda-roupa embutido, em outra parede estava encostada a cabeceira de uma cama de solteiro, onde eu estava, ao seu lado havia uma porta que no momento estava aberta, dando para se perceber que dava para uma suíte, e do outro lado da cama havia um criado, com um relógio e um abajur. Na parede da minha direita havia uma janela e uma escrivaninha que continha um notebook, e alguns outros objetos como lápis, canetas, blocos de papel etc. Na parede que ficava oposta a outra parede em que a cabeceira da cama estava encostada havia uma porta fechada ao seu lado havia um acendedor de luz, e uma estante de livros, que continha vários livros.
Logo após observar atentamente o quarto, eu me levantava da cama e ia ao guarda-roupa abrindo assim uma das portas onde se havia um espelho afixado na parte que fica para dentro desta porta, ao começar a olhar para mim mesmo refletido naquele espelho, eu via que estava vestindo uma calça que deveria ser de um pijama e estava sem camisa, meus olhos eram azuis e sua tonalidade era clara como o céu em uma tarde ensolarada, meu cabelo era liso, da cor preta e curto, ao pegar no mesmo com uma de minhas mãos, percebia que também era macio, o meu físico era ótimo, mas se espalhando pelo meu tórax para as costas se encontravam algumas cicatrizes, das quais eu as contornava com os dedos, estas eram finas e não tão grandes.
O mais estranho de tudo era que ao tentar me lembrar a onde eu estava nada me vinha à cabeça, era como se tudo o que eu tivesse vivido, tivesse sido apagado de minhas memórias, aos poucos a minha cabeça começava a doer, indo de uma leve dor de cabeça para uma forte dor de cabeça. Instantaneamente eu caia ajoelhado no chão, com as mãos sobre a minha cabeça, a pressionando e pensando no como aquilo tudo era estranho, aos poucos meu corpo ia ficando fraco, e eu me perguntava quanto tempo ia agüentar ficar ali parado, prostrado diante de meus joelhos, eu podia prever que em alguns instantes iria cair inconsciente no chão.
Enquanto isso sem ao menos eu perceber a porta que ficava ao lado da estante de livros e que até então havia estado fechado se abria rapidamente, e desta mesma surgia uma figura vindo em minha direção rapidamente, tentando ver quem estava entrando eu via um homem, ele vestia uma bermuda jeans e uma blusa de manga curta preta com uma listra grande e branca no meio, seus olhos também eram azuis, mas de uma tonalidade diferente, era um pouco mais escura , e o seu cabelo era loiro e curto, ele estava segurando um copo com água em uma das mãos, enquanto na outra ele trazia uma espécie de comprimido que eu não sabia ao certo o que era, mas isso não me importava, pelo menos até aquele determinado momento, em instantes ele se ajoelhava , ficando de frente para mim, ao olhar em sua face dava para notar que ele falava algo, mas eu não conseguia escutar.
Ao perceber que eu não o estava escutando ele fazia alguns gestos para mim indicando que era para eu tomar o comprimido e logo depois beber a água, seguindo suas recomendações apesar de não saber se aquele homem era digno de confiança eu fazia o que ele mandava.
A dor de cabeça já começava a se dissipar, e aquele barulho agudo que havia surgido misteriosamente já havia sumido completamente, mas uma onda de sonolência começou a surgi, assumindo assim o controle do meu corpo, e em alguns segundo depois, talvez até minutos ou horas, já que o tempo não demonstrava estar passando naquele local, eu já estava dormindo.
Ao acordar novamente eu me encontrava deitado no mesmo local, era inevitável pensar naquele jovem que havia aparecido, “Quem seria ele? Eu o conheço?” este era o tipo de pergunta que eu fazia a mim mesmo, enquanto nem notava que a dor de cabeça ou aquele barulho agudo já não me assolavam mais. Os meus pensamentos eram interrompidos instantaneamente ao ouvir uma voz que aparentava maturidade e uma certa preocupação me chamar.
- Olá Johann!
Ao olhar ao meu redor, eu via aquele mesmo jovem que esteve presente naquele momento passado, ele estava encostado na quina da porta que dava para um corredor, ao perceber que eu havia atendido ao seu chamado, ele se direcionava a escrivaninha, pegando com uma das mãos a cadeira que ficava de frente para ela, levando-a e colocando ao lado da minha cama onde eu estava sentado, ao colocá-la ali ele se sentava sobre ela e coloca a cabeça sobre as mãos que estavam sobre o seu colo, ele demonstrava estar preocupado, quando ele voltou ao normal, a sua preocupação já não era tanta como:
- Olá, me desculpe, mas eu não me lembro de você! – Eu dizia em quanto me levantava de maneira que poderia ficar. – Quem é você?
- Hum... Interessante – O Jovem dizia com uma expressão de fascinação. - Pensei que isto era impossível. – Logo após dizer tais palavras ele começava a rir, e uma nova expressão surgia sobre a sua face, desta vez parecia ser de alegria e contentamento.
Ao ficar escutando ele rir, uma onda de impaciência e raiva começavam a surgir em mim, meus olhos juntamente com os meus punhos começavam a ficar semi cerrados, ao perceber isto o jovem parava de rir, e ficava quieto por um instante e logo dizia:
- Você não mudou mesmo, heim? – Ele dizia se controlando para não voltar a rir - Mas antes de me explicar deixe me perguntar uma coisa, você se lembra de alguma coisa do seu passado?
Johann que ainda lutava para vencer aquelas emoções, ele conseguia, em alguns instantes ele abria os olhos e as mãos, e com uma voz séria ele dizia:
- Não me lembro de nada, que tenha ocorrido antes de eu ter acordado, pela primeira vez!
- Hum... O que me fez rir foi simplesmente você não se recordar de nada anteriormente ao ocorrido e ainda assim se lembrar de seu nome, prova disto é que quando lhe chamei pelo seu nome, você atendeu.
- E como isto seria possível? – Dizia Johann surpreendido por aquela resposta, ele se lembrava do momento em que o Jovem o havia chamado pelo nome de Johann, e sem ao menos notar ele havia atendido ao chamado.
- Como isto é possível? Não me pergunte, mas se eu dissesse que não seria possível estaria subestimando suas habilidades, e, além do mais, alguns casos, a ciência e a lógica não podem explicar. Respondendo a sua pergunta inicial, me chamo Bryam Scoth e prevendo a suas outras perguntas antes que as faça... Sim já nos conhecemos, na verdade eu já o conhecia antes mesmo de você nascer, não me pergunte como, tenho certeza que um dia, em um futuro distante você vai descobrir, e não cabe a mim estragar este momento.
Antes mesmo de Johann terminar de pensar na próxima perguntar Bryam continuava:
- Você se chama Johann e pertence à família Lecter, há uma semana você fugiu de lá, mas antes disto, você tomou precauções para que não fosse encontrado, por isso pediu para Rune não te localizar dentro de uma semana, e cuidar para que mais ninguém o fizesse. Você chegou aqui há cinco dias, já passava das duas da manhã, você estava sujo e exausto, dando a impressão de que você veio direto da casa de sua família para aqui, sem pausas para descanso, ou para qualquer outro tipo de tarefa, se fosse alguém normal, ele teria desmaiado antes mesmo de chegar aqui, mas quando me pego em tal pensamento, eu me lembro de quem você é. Quando chegou aqui você me pediu para ficar algum tempo, fiquei algumas horas tentando conversar com você, mas você não me dizia nada que fosse explicar por que havia fugido de sua casa ou tivesse vindo para aqui, logo depois que percebi que todas as tentativas que fiz foram em vão e que nada que eu fizesse poderia fazer com que você falasse, você foi dormir, e ficou dormindo desde então, até hoje.
Johann começava a pensar em quem seria Bryam, mas antes mesmo de poder terminar ou concluir qualquer um de seus pensamentos em perguntas, Bryam novamente falava:
- Como já disse meu nome é Bryam Scoth. Tenho uma doença pela qual tenho de evitar a luz do sol , por isso não fique surpreso se não me ver a luz do dia, ou por mesmo de dia a minha casa ser um pouco escura. Possuo a habilidade de prever o que está por acontecer, muitos chamam isso de prever o futuro, mas sou um tipo diferente, eu prevejo o que vai acontecer através de algo que está acontecendo, por isso o que prevejo não tem como mudar, ao contrario dos outros que podem prever o futuro, mas estas previsões são modificadas pelas decisões que cada um toma. Por exemplo, eu posso prever cada pergunta que você vai fazer, mas para isso preciso que você comece a pensar nesta pergunta, até cinco dias atrás, para prever o que você estava por perguntar eu tinha que esperar você começar a fazer a pergunta, mas eu não fazia isso, afinal é falta de educação interromper alguém quando está falando.
Quando Johann estava começando a pensar o porquê de Bryam não conseguir entrar em seus pensamentos até cindo dias atrás, e o porque dele conseguir agora Bryam voltava a responder antes mesmo dele perguntar:
- Isto se deve ao fato de você possuir um bloqueio mental muito forte, ou seja, não há como entrar em sua mente, seja para ver os seus pensamentos ou extrair alguma informação, para fazer isto, é necessário um certo nível de experiência que poucos tem. Se você não se importar Johann gostaria de levar a minha sala de estar, daqui a poucos minutos Rune vai tocar a campainha, e ele vai querer conversar com você, então se prepare, pois ele não vai gostar de ficar sabendo que encobriu os seus rastros durante uma semana, para que no fim você fosse perder a memória de tudo o que já aconteceu com você.
- Está bem, mas será que tem como você parar de ler os meus pensamentos? Gostaria de fazer eu mesmo as minhas próprias perguntas. – Eu dizia deixando sobressair o meu encomodo com aquilo.
- Está bem Johann, eu vou parar, mas agora você deve trocar de roupa, não vai querer receber uma visita de pijama! – Bryam falava com sarcasmo.
Após mencionar tais palavras Bryam se retirava e fechava a porta, me dando assim privacidade para poder trocar de roupa. Depois que ele saiu eu ia em direção ao guarda-roupa, como eu não me lembrava em qual das portas do guarda-roupa, estavam as minhas roupas eu abri todas as portas dele, até achar aquela em que estavam as minhas roupas, nas duas primeiras que eu havia aberto estavam a parte onde ficavam as camisas, lá havia uma grande variedade de estilos de camisas, indo de camisas sociais, a camisas pólo, camisetas, blusas de mangas compridas e entre outros tipos. Abrindo mais duas portas, eu via a parte onde estavam os sapatos, tênis, sandálias, chinelos. Na seguinte ficavam várias partições, onde estavam lençóis, travesseiros e cobertores. Nas outras duas restantes estavam as calças, que assim como as blusas tinham grandes variedades, e também tinha algumas gavetas, onde havia meias, roupas íntimas e etc. Por fim eu acabava pegando uma blusa pólo da verde escuro, um short preto e um chinelo. Em seguida eu voltava a me sentar na cama e revisar tudo o que havia sido discutido desde que havia acordado.
Em alguns minutos, Bryam batia na porta e perguntava se já estava pronto, após eu responder afirmativamente, ele abria a porta e começava a me guiar pelo corredor, que era repleto de pinturas de paisagens e monumentos históricos, dos quais eu reconhecia a maioria, como o coliseu, ou a Capela cistina e entre outros monumentos como o Palácio de Versalhes e a muralha da China, quando mais se adentrava pelos corredores, mais pinturas eram identificadas, era como se eu já tivesse visto todos aqueles monumentos, e em minha mente eu poderia buscar várias informações a cerca destes monumentos, como se ela fosse uma enciclopédia pronta para me dar as informações que alimentassem a minha sede por conhecimento. Ao chegar ao fim daquele corredor, podia-se ver uma porta que se abria em duas, esta parecia ser antiga, pois a medida que o tempo havia passado desde que fora feita havia deixado a sua cor um pouco mais escura, deixando-a cada vez mais bela, ao chegar até aquela porta Bryam colocava as palmas de suas mãos sobre a superfície das duas metades das portas e as empurrava, com a força que Bryam empurrava as portas elas se abriam para o lado de dentro do outro cômodo, era notável que pessoas normais não conseguiriam abrir aquelas portas, pelo fato de serem pesadas, logo que as portas já estavam abertas eu entrava, e em seguida Bryam fechava as portas atrás de mim.
Aquele era um belo cômodo, que após analisar eu identificava como uma típica sala de estar onde as pessoas poderiam conversar calmamente sem serem interrompidas, era grande e confortável ele possuía um ar nobre de outra época passada, em uma das paredes havia janelas imensas que eram cobertas pelas imensas cortinas que eram proporcionais ao tamanho das janelas e paredes, como o resto da casa as paredes haviam sido pintadas por tons neutros, e todos os objetos do lugar combinavam com eles, haviam dois sofás em posições que permitiam que aqueles que se sentassem ali, ficassem de frente para o outro ou ao seu lado, entre eles havia um tapete com várias figuras geométricas que se encaixavam perfeitamente, e em cima do tapete havia uma mesa de centro, com uma pequeno vaso de rosas vermelhas em cima, em todo aquele cômodo haviam duas portas, uma na parede esquerda e outra na da direita, sendo que era pela porta da direita que nós havíamos passado á pouco. Interrompendo todos os meus pensamentos Bryam falava:
- Johann, está é a minha humilde sala de estar, não gaste tempo com pensamentos, apenas venha se sentar aqui a minha frente, enquanto aguardamos Rune.
Seguindo o que Bryam havia me dito eu me assentava no sofá que ficava de frente para o que ele estava assentado, uma onda de curiosidade e ânsia vinham sobre mim, afinal “Quem seria Rune? Ou pelo menos, como ele seria comigo?” eram perguntas que vinham sobre a minha mente e que eu sabia, que só acabariam quando ele chegasse.